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Van Gogh e Paris

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Esta natureza-morta com foi pintada por Van Gogh quando ele já estava há alguns meses em Paris. Sua pintura ainda não havia sofrido grandes transformações em termos de paleta. O motivo não era nada usual, mas ele o explorou diversas vezes. Neste caso, ele comprou as botas usadas em um brechó e andou bastante com elas na lama para sujá-las até ficarem adequadas para pintar.

Em fevereiro de 1886, a situação financeira de Vincent era tão ruim que ele não estava conseguindo pagar seu aluguel em Antuérpia. Foi quando ele resolveu ir para Paris, morar com o irmão.

Escreveu a Theo em um bilhete: "Não fique chateado comigo por eu ter vindo tão de repente. Eu pensei muito e acho que assim vamos economizar tempo." Eles já tinham conversado sobre isso, mas a mudança estava prevista para alguns meses mais tarde.

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Era o início de um período de dois anos que permitiu grandes transformações no seu trabalho: dos tons sombrios de sua pintura realista inicial para uma arte de cores e texturas intensas.

Theo van Gogh morava em Montmartre, o bairro dos artistas, e trabalhava para um dos mais importantes comerciantes de arte de Paris, Goupil. A cena era dominada por impressionistas, pontilhistas, divisionistas, com sua exploração da luz e da sombra, sua busca de representar a luz na tela com pinceladas de cores puras que se misturavam no olho do observador. Mas lá estavam também os cloisonnistes, pintando figuras também com cores puras, mas em áreas lisas, chapadas, e com contornos pretos.

Van Gogh teve contato com todos eles e experimentou todas as tendências, absorvendo cada uma delas e tentando encontrar sua própria linguagem. Aprendeu novas técnicas e estilos com muitos dos artistas que conheceu.

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Uma das primeiras telas em que a influência impressionista/divisionista sobre Vincent van Gogh fica evidente. Pintada em julho de 1887 in loco em Montmartre, Paris. Museu Van Gogh, Amsterdam

Antes de Paris, van Gogh era muito influenciado pela pintura de Rembrandt e outros grandes pintores holandeses, e pela nova pintura realista da Escola de Haia (entre eles, seu primo Anton Mauve, que foi quem lhe deu as primeiras aulas de pintura de sua vida). Com uma paleta extremamente sombria buscava registrar a vida também sombria das classes desprivilegiadas. "Os comedores de batata", talvez o quadro mais icônico dessa sua fase, foi pintado um ano antes de sua mudança a Paris. Na verdade, foi somente no seu segundo ano em Paris que sua pintura veio a adquirir a paleta de cores intensas que conhecemos hoje.

Entre outras coisas, de Émile Bernard e Paul Gauguin, cloisonnistes, veio um estilo mais bi-dimensional de representação pictórica, cores puras em áreas lisas e nitidamente contornadas. Adolphe Monticelli o influenciou nas pinceladas grossas, os impastos, a tinta em alto relevo (e foi a obra de Monticelli que acabou levando Vincent a Arles mais tarde). E dos impressionistas e divisionistas veio a influência mais evidente: o culto à luz natural e sua representação na tela em pinceladas de cores puras, justapondo pinceladas finas de cores opostas.

Costuma-se dizer que a razão de van Gogh deixar Paris, rumo ao Mediterrâneo, Arles especificamente, foi a busca de um clima mais ensolarado e luminoso para pintar. Mas, por uma outra ótica, talvez tenha sido a grade frustração por não se cumprir sua expectativa de ver seu trabalho aceito e valorizado na grande capital cultural. A última tela que pintou em Paris, um auto retrato segurando uma paleta e pincéis, diz muito a esse respeito. Tristeza e cansaço dominam seu semblante.

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Autorretrato como pintor, óleo sobre tela, 65.1 cm x 50 cm, Van Gogh Museum, Amsterdam. A última pintura de Vincent em Paris. Apesar da paleta vibrante, o artista intencionalmente se mostra triste e abatido, profundamente cansado da vida naquela cidade
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