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Como retardar a secagem da tinta a óleo

Quando os pintores, durante a Renascença, ou antes, começaram a usar a tinta a óleo, um dos seus atrativos foi a secagem lenta. Isso, comparado às outras técnicas e materiais então disponíveis, dava um conforto muito grande, uma tranquilidade surpreendente na hora de pintar: havia a possibilidade de ficar manipulando a tinta com o pincel e conseguir incríveis degradês. E também o pintor podia fazer correções, mudar de ideia, retirar a tinta ainda úmida e começar tudo de novo.

Hoje, a maioria das pessoas que pintam com tinta a óleo se preocupa mais em acelerar a secagem do que em retardá-la. Por isso, as fábricas (nem todas!) costumam acrescentar substâncias secantes à tinta.

Mas às vezes pode ser necessário fazer a tinta ficar úmida por mais tempo. Quando se busca um alto nível de detalhamento ou de realismo é interessante ter um tempo maior para trabalhar a tinta. Principalmente para evitar a sobreposição de camadas.

Pintando em uma única camada se aproveita melhor a luz refletida da imprimação branca da tela. As cores ficam mais frescas e luminosas. Uma laranja, por exemplo, vai ter muito mais vida se for pintada diretamente sobre o branco da tela do que sobre uma camada de tinta cinza mais escura.

A maneira mais segura de ter uma tinta com secagem lenta é usar pigmentos que, pela sua composição química, não funcionem como catalizadores da oxidação do óleo.

A tinta a óleo seca por oxidação, ou seja, pela absorção do oxigênio do ar, e alguns pigmentos são feitos com substâncias que inibem esse processo; outros são baseados em compostos que o aceleram. As cores de ftalocianina, por exemplo, e as de óxido de ferro, as terras e sombras, o branco de chumbo, etc, secam em poucas horas porque algum elemento em sua composição catalisa a oxidação do óleo.

Por outro lado, os cádmios e os brancos de zinco e titânio, o violeta de dioxazina, o magenta de quinacridona (PR122), quase todos os amarelos e vermelho orgânicos, entre outros, inibem a oxidação, fazendo com a tinta leve dias ou até semanas para secar.

Além dos pigmentos, o tipo de óleo que foi usado na fabricação da tinta é determinante do seu tempo de secagem. O óleo de linhaça seca muito mais rápido que o de nozes, e o óleo de papoula é o mais lento de todos. O óleo de açafrão (safflower) também seca devagar, assim como o de girassol.

A maioria dos fabricantes acrescenta secantes às cores lentas para uniformizar a secagem, já que a maior parte dos consumidores prefere tinta de secagem relativamente rápida. Mas existem algumas marcas que buscam respeitar as características de cada pigmento, mantendo sua secagem natural. Michael Harding, por exemplo. Jackson's também. A dioxazina e o magenta de quinacridona da Gamblin são bastante lentos, e as marcas Winsor & Newton e Rembrandt possuem algumas cores que demoram para secar.

Óleo de cravo

O uso do óleo de cravo é forma mais eficaz de retardar a secagem da tinta a óleo. Apesar do nome, este líquido não é propriamente um óleo, mas um diluente, sendo totalmente volátil (evapora completamente sem deixar resíduo — se for de boa qualidade).

O óleo de cravo, ou "essência oleosa de cravo", evapora tão devagar que uma gota em um montinho de tinta de uns dois centímetro cúbicos faz com que essa tinta leve vários dias para secar. Isso depende, é claro, como foi dito acima, da composição de cada tinta: alguns pigmentos fazem com que a tinta seque muito rápido; outros, por si sós, retardam a secagem. No primeiro caso o óleo de cravo vai retardar a secagem apenas até o dia seguinte; no outro extremo, a tinta pode levar até uns dez ou quinze dias para secar (em um clima ameno e não muito seco).

Mas, como é um diluente, é preciso ter consciência de que a tinta vai resultar mais fosca, com menos brilho, e, sobretudo, com menor poder de aglutinação e de aderência; e se esse diluente for usado em demasia (como qualquer outro diluente), vai prejudicar a qualidade da película de tinta, que, ficando com pouco aglutinante, pode craquelar e desprender.

Na verdade, é mais recomendável, se possível, em vez de misturar o óleo de cravo com a tinta, usar apenas o seu vapor. Ele é extremamente rico em eugenol, substância altamente antioxidante. É justamente ela que faz com que o óleo não se oxide e não seque. Umas gotas do óleo em um chumaço de algodão vai soltando um vapor rico em eugenol, impedindo a oxidação da tinta que estiver perto.

Esse produto é o mesmo que os dentistas usam em curativos provisórios, devido ao grande poder antiséptico do eugenol. Aliás, nas lojas de materiais para dentistas o óleo de cravo é vendido sob o nome de eugenol

Óleo de papoula

Alguns pintores retardam a secagem apenas com óleo de papoula, que é um óleo secante normal, usado como aglutinante por algumas fábricas, mas que demora muito mais que o de linhaça para secar. É uma boa opção, só que o efeito retardador, na mistura com a tinta, não é tão grande e, como todo óleo, se usar demais, deixa a tinta muito transparente e lustrosa. E o óleo de papoula forma uma película muito frágil.

Terebintina de Vezeza

A terebintina de Veneza é um bálsamo extraído de algumas coníferas. É a partir dela que se fabrica a terebintina que é usada como diluente. Esse bálsamo tem um bom efeito retardador sobre a tinta a óleo, embora não chegue aos pés do óleo de cravo. Talvez seja interessante misturar os dois, já que a terebintina de Veneza tem a benigna capacidade de melhorar a flexibilidade da tinta (embora deixe a película um pouco mais frágil), reduzindo o risco de craquelamento

Para quem gosta, ela também dá um acabamento mais lustroso ao quadro, aquela qualidade pictórica tradicional, meio esmaltada.

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