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Hiper-realista?

Minhas naturezas-mortas são sempre rotuladas de hiper-realistas. Mas, embora minha visão estética tenha realmente sofrido uma influência significativa do hiper-realismo, o rótulo, na verdade (se precisasse haver algum), não deveria ser exatamente esse.

O traço principal do movimento hiper-realista sempre foi a relação íntima entre pintura e fotografia. O processo criativo é dependente da fotografia, que é utilizada tanto como meio de gravar os motivos da obra, fixando e substituindo a realidade, efêmera por natureza, quanto como motivo em si mesmas: a própria foto como tema da obra. E as imagens são, via de regra, bastante ampliadas, resultando em telas gigantescas, buscando causar aquele impacto de coisa monumental.

No meu caso, além de NÃO usar a fotografia como modelo, eu também não amplio (ou, quando amplio, amplio muito pouco) as imagens, de forma que se mantém mais ou menos a plausibilidade da representação. Trabalho da maneira tradicional, com modelos “reais”, frutas, principalmente, que compro no supermercado e, quando possível, depois de pintar, devoro. Existe uma preocupação com a realidade das coisas e minha relação com elas, enquanto a visão dos hiper-realistas é mais fria e impessoal. Sua proposta é mais conceitual: o processo de criação da obra carrega mais significado em si, talvez, do que as imagens contidas nela.

Mas, sem dúvida, minha visão foi bastante influenciada por aquelas telas de Richard Estes e Ralph Goings, e as esculturas de Duane Hanson e John de Andrea, por uns desenhos espanhóis que vi expostos no MARGS (acho que foi nos anos oitenta), e vários outros artistas com quem me deparei quando estava tentando construir minha linguagem plástica.

Não que eu realmente goste do hiper-realismo. Os pintores e escultores hiper-realistas não estão entre os artistas que eu mais admiro e que gostaria de imitar (ou ser). Não é meu ideal plástico. O que acontece é que pintar realisticamente é o que é mais fácil e natural para mim, não sei por quê.

As primeiras manifestações do que viria a ser chamado hiper-realismo (em inglês, superrealism, ou photorealism) apareceram em meados da década de 1960, talvez principalmente como uma reação ao expressionismo abstrato que dominava as faculdades de arte, as galerias e a crítica de arte da época. Audrey Flack, Malcom Morley, Robert Bechtle, Richard Estes, Chuck Close e John Salt (e outros que não ficaram tão conhecidos), cada um por alguma razão específica, isoladamente começaram a pintar a partir de fotos e com grande exatidão realística. A busca de uma visão neutra, impessoal, ultra objetiva; a busca de uma maior aproximação com o público; uma reação ao dogma do expressionismo abstrato — diversas razões os motivaram individualmente. Para alguns a fotografia se tornou o próprio motivo da pintura; para outros, o motivo, como na tradição do realismo, continuava sendo a realidade, tendo a fotografia apenas como uma ferramenta para alcançar o realismo extremo, aproveitando o caráter imparcial da imagem gravada mecanicamente pela câmera. Alguns autores consideram o hiper-realismo uma ramificação da arte Pop, com a qual realmente compartilha algumas atitudes. Com certeza, sem o Pop não haveria hiper-realismo.

Audrey Flack, Shiva Blue, 1973, óleo e acrílico sobre tela, 89 x 127 cm

Audrey Flack, Marilyn or Vanitas, 1977, óleo e acrílico sobre tela, 244 x 244 cm

Escultura de Duane Hanson

Duane Hanson, Supermarket Shopper, 1970, escultura em resina de poliéster e fibra de vidro pintada com óleo, com roupas, carrinho de aço e produtos de supermercado, tamanho natural. Nachfolgeinstitut, Neue Galerie, Sammlung Ludwig, Aachen

David Parish, óleo sobre tela

Richard Estes, óleo sobre tela

Ralph Goings, Miss Albany Diner, 1993, óleo sobre tela, 122 x 183 cm

Ralph Goings, Natureza-morta River Valley, 1976, óleo sobre tela, 60 x 86 cm

Franz Gertsch, Marina maquiando Luciano, 1975, acrílico sobre algodão sem primer, 234 x 346 cm, Museum Ludwig, Köln

Chuck Close, Grande Auto Retrato, 1967-68, Acrílico sobre tela, 273 x 212 cm, Walker Art Center, Minneapolis

Um dos famosos retratos gigantescos pintados por Chuck Close

John DeAndrea, Katie Sentada, 1996, escultura em vinil, tamanho natural

Ben Schonzeit, Couve-flor, acrílico sobre tela, 213 x 213 cm, 1975

Robert Bechtle, ’61 Pontiac, 1968–69, óleo sobre tela, 152 × 214 cm, Whitney Museum, New York

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