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Cada um com sua quimera

Sob um vasto céu gris, numa grande campina poenta, sem caminhos, sem ervas, sem um cardo nem uma urtiga, eu encontrei muitos homens que marchavam curvados.

Cada um deles carregava nas costas uma enorme Quimera, tão pesada quanto um saco de farinha ou de carvão, ou então os petrechos de um legionário romano.

Porém o monstruoso bicho não era uma carga inerte; pelo contrário, ele envolvia e apertava o homem com seus músculos elásticos e potentes, cravava duas garras compridas no peito da sua cavalgadura, e a cabeça fabulosa dele sobrepujava a testa do homem como um daqueles elmos horríveis por meio dos quais os antigos guerreiros procuravam acrescentar ao terror do inimigo. Eu abordei um desses homens e perguntei-lhe aonde eles iam assim. O homem respondeu que nem ele nem os outros sabiam nada disso, mas que, evidentemente, eles se dirigiam para algum lugar, impelidos por uma invencível necessidade de marchar.

Coisa estranha a notar: nenhum desses viajantes parecia irritado com a besta-fera suspensa no seu pescoço e colada às suas costas, como se a considerasse parte dele mesmo. Todos esses rostos cansados e sérios não testemunhavam desespero algum; sob a cúpula tediosa do céu, os pés engolfados na poeira de um solo tão desolado quanto aquele céu, eles caminhavam com a fisionomia resignada de quem se vê condenado à eternal esperança.

E o cortejo passou a meu lado e afundou-se na atmosfera do horizonte, lá onde a superfície arredondada do planeta se esquiva à curiosidade do olhar humano.

E, durante alguns instantes, obstinei-me em querer compreender esse mistério, mas pouco depois uma irresistível indiferença veio desabar sobre mim, e eu fiquei mais oprimido por ela do que os homens pelas suas esmagadoras Quimeras.

Charles Baudelaire, de O Esplim de Paris: pequenos poemas em prosa (1869).

letter to god

LETTER TO GOD
Courney Love / Hole

Oh dear god
I’m writing this letter to you
Cause I don’t have a clue
Can you help me?

I’m sitting here
Simply trying to figure out
What my life’s all about it
Can you tell me?

I never wanted to be
The person you see
Won’t you tell me who I am?

I always wanted to die
But you kept me alive
Please tell me who I am

I lie awake conducting this symphony,
That you have gifted to me,
but I don't ever sleep

Don’t get mad
Cause I get weak inside
And I start to fall apart
Cause I feel nothing

I never wanted to be
Some kind of comic relief
Please show me who I am

I been tortured and scorned
Since the day that I was born
But I don’t know who I am

And I thank you man for everything
Sorry I’m so frightened about all of this
Oh I wish I could give you more

But all the lights are shining down on me
And I feel violated by it all

I never wanted to be
The person you see but thank you
Oh god please tell me now
Are you disappointed or are you proud
I’ve been also EVRYTHING, EVRYTHING!

I’m so sorry I’m so weak
And I turned into a freak
But I don’t know ANYTHING, ANYTHING!

I’ve lost all self-esteem
A million, everything
And I feel NOTHING, NOTHING!

Oh god please tell me now
God please tell me now
Cause I feel nothing

Oh dear god I’m writing this letter to you
Cause I’m coming undone
Please help me, me

...

"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne,
e sangra todo dia.”

Saramago se foi.

Queria ser ele. Talvez eu pudesse descansar em paz também. Mas nesta madrugada fria uma garrafa de vodka e Bruce, é tudo o que tenho. Pensando bem, do que mais preciso?

Talvez eu pudesse me entragar à vida... Parar de tentar controlar tudo...

Acho que vou desenhar qualquer coisa absurda (como a vida). Talvez depois eu durma em paz.

Francis Bacon

Francis Bacon em seu ateliêFrancis Bacon em seu pequeno e imundo ateliê em Londres

Francis Bacon (1909, Dublin - 1992, Madri) é meu ídolo. Admiro e invejo. Um único grito, talvez monotônico, mas inconfundível e que ecoará até o fim desta civilização doente. Nunca estudou arte e desenvolveu uma forma de pintar muito própria, explorando distorções da figura humana para mostrar a violência animalesca enrustida na humanidade alienada e cínica.

Hiper-realistas

Minhas naturezas-mortas são sempre rotuladas de hiper-realismo. Mas o traço principal do hiper-realismo sempre foi o uso de fotografias, tanto como meio de gravar os motivos da obra, substituindo a efêmera realidade, quanto como motivo em si mesmas.

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