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Tinta a óleo: qualidade

Sempre foi muito difícil conseguir bons materiais de arte no Brasil. Simplesmente não existem tintas a óleo e pincéis de primeira qualidade fabricados aqui.

Mas o que determina a qualidade de uma tinta a óleo?

1. Primeiro, a qualidade da matéria-prima utilizada. Talvez não exista na indústria de materiais artísticos brasileira, pessoal qualificado para selecionar uma matéria-prima melhor. Mas é mais provável que não haja interesse por parte dos fabricantes, já que isso elevaria muito os custos de produção da tinta. Como o público consumidor seria muito pequeno, não compensaria investir em um óleo de linhaça, cártamo ou papoula especial, e em pigmentos selecionados de forma a garantir a durabilidade da cor.

Por contraste, fábricas estrangeiras tradicionais, como a inglesa Winsor & Newton, que produz materiais desde 1832, ou a belga Blockx, desde 1865, exportam para o mundo todo, vendem muito e podem adquirir quantidades grandes de pigmentos e óleos da melhor qualidade e das mais variadas origens, pagando bem menos por isso e podendo, assim, vender a um preço relativamente acessível. Além disso, como são empresas muito antigas, teoricamente têm um nome a zelar e um controle de qualidade confiável.

2. A quantidade do pigmento usado em proporção ao aglutinante (o óleo, no caso). A tinta ideal utilizaria somente óleo e pigmento (de preferência sem misturar pigmentos diferentes), sem nenhum adulterante (pigmento incolor ou cera), e a máxima quantidade possível de cada pigmento. Com isso a tinta teria uma cor extremamente pura e intensa, com grande poder de cobertura. (Alguns testes de visualização podem ser feitos para se verificar o grau de pigmentação de uma tinta). Na prática, mesmo os melhores fabricantes acrescentam, pelo menos a alguns pigmentos, uma quantidade mínima, precisamente controlada, de pigmentos transparentes e/ou cera de abelhas para melhorar a consistência. Com esse controle, essas substâncias não são consideradas adulterantes, mas estabilizadores.

3. A formulação da tinta: a maneira como o pigmento e o aglutinante são combinados, o grau correto de dispersão do pigmento no óleo, a escolha do óleo mais adequado a cada pigmento e o controle preciso de quaisquer aditivos (como os mencionados acima) que o fabricante decida acrescentar aos dois ingredientes básicos.

4. A informação fornecida. Um fabricante sério oferece, de preferência no próprio tubo de tinta, ou então em folhetos, informações confiáveis e mais ou menos detalhadas sobre a composição básica da tinta — o óleo e o pigmento usado.

Verso de um tubo de tinta a óleo da linha profissional da Winsor&Newton (Artist's Oil Colours)
Verso de um tubo de tinta a óleo da linha profissional da Winsor&Newton (Artist's Oil Colours)
Verso de um tubo de tinta a óleo Gamblin Artist's Oil Colors (a linha superior da fábrica)
Verso de um tubo de tinta a óleo Gamblin Artist's Oil Colors (a linha superior da fábrica)

Na primeira foto, por exemplo, pode-se ver um tubo da linha profissional da Winsor & Newton, da cor Magenta, onde se vê que os pigmentos utilizados são o Violeta de Dioxazina PV23 e o Magenta de Quinacridona PR122, e o óleo é o de cártamo. E considerando a tradição dessa fábrica, pode-se ter certeza de que os ingredientes são de fato os indicados.

Na outra foto, um tubo da marca norte-americana Gamblin, onde se percebe que foi usado o óleo de linhaça álcali refinado e o pigmento Violeta de Dioxazina (Carbazol) PV23. Pode-se ver ainda que a tinta está de acordo com os padrões ASTM D 4302 e 4236, que são padrões elaborados e fiscalizados pela ASTM, o que garante que o produto segue uma séria de especificações mínimas — é uma garantia de qualidade.

Nas tintas fabricadas no Brasil a informação é, no máximo, genérica, como "pigmentos orgânicos e óleos vegetais", ou nem isso...

Profissional x Estudante

Tradicionalmente, quase todos os grandes fabricantes produzem pelo menos duas linhas de tinta: a chamada "para estudantes" (talvez 90% dos consumidores), e a profissional, ou "para artistas". A Winsor & Newton, por exemplo, produz a linha Winton, onde são usados pigmentos mais baratos e/ou em concentração menor, resultando em uma tinta bastante inferior à sua linha "Artist's Oil Colours". Outro exemplo pode ser a Talens (indústria holandesa), que produz as linhas Rembrandt, de ótima qualidade; Van Gogh, de qualidade média; e Amsterdam, de qualidade (e preço, é claro) inferior.

No contexto brasileiro, talvez não faça muito sentido usar uma tinta importada que seja fabricada "para estudantes", já que seu preço é bem superior ao das tintas nacionais e sua qualidade talvez se equipare. Se um artista vai comprar uma tinta importada, então é melhor comprar uma linha profissional. É mais cara, mas "rende" mais, ou seja, uma quantidade pequena de uma certa cor é suficiente onde seria necessário uma quantidade bem maior de uma tinta inferior.

Mas quem está ainda aprendendo, precisa de uma quantidade grande de tinta, suficiente para não ter pena de gastar! Então, a não ser que se trate de alguém mais abastado, é melhor ter uma quantidade grande de tinta de baixa qualidade e usá-la à vontade, criando e experimentando, do que ter uma quantidade pequena de uma tinta profissional e ficar com receio de usar...

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