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Hans Hartung - Oficina do Gesto


Hans Hartung, sem título, guache, pastel e carvão sobre papel, 50 x 63 cm, 1935

Excelente a exposição, no CCBB de São Paulo, sobre Hans Hartung (1904 — 1989), intitulada Oficina do Gesto, a primeira mostra retrospectiva do modernista no Brasil. Apesar de o espaço ser meio desajeitado para uma exposição tão grande, fazendo com que as mais de 160 obras ficassem espalhadas por cinco andares, tendo o visitante que pegar elevador ou descer escada entre uma sala e outra, a impressão que fica é de uma organização muito bem feita por parte do CCBB. Ou talvez, olhando de outro modo, justamente a fragmentação forçada pelas limitações do espaço talvez tenha feito a exposição ficar interessantemente dividida em cinco fases ou aspectos diferentes, definindo-se assim uma imagem didaticamente organizada do conjunto da obra.

CCBB São Paulo

No subsolo, Hartung Gravurista: uma retrospectiva de gravuras; no 1º andar, a biografia do artista; 2º andar: O Gesto Justo (1956-1981); 3º andar: Os Anos Decisivos (1935-1946); 4º andar: Os Extremos: Gênese e Obra Final (1922-1989).

Hans Hartung nasceu em Leipzig, em 1904 e morreu na França em 1989. Nos anos 30 teve que fugir da Alemanha: os nazistas queriam prendê-lo por causa da pintura cubista "degenerada" que fazia na época. Refugiou-se na França e chegou a lutar pelo exército francês, até perder a perna direita em uma das batalhas da Segunda Guerra. Teve muita dificuldade para começar a viver de arte. Sua primeira exposição individual foi aos 43 anos, em Paris, em 1947. Na década seguinte seu abstracionismo gestual ganhou notoriedade, chegando a ser premiado na Bienal de Veneza de 1960.

Hans Hartung
Hans Hartung
Hans Hartung
Hans Hartung
Hans Hartung
Hans Hartung
Hans Hartung
Cópias (facsimilé edition 1966) de algumas aquarelas tachistas de 1922, de pequenas dimensões

As obras mais antigas da exposição são as aquarelas de 1922, muitas vezes consideradas pioneiras do abstracionismo, ou, no mínimo, altamente originais nesse sentido. O próprio Hartung, pelo menos, costumava dizer que quando pintou essas aquarelas, aos 17 anos, ainda não conhecia os experimentos abstracionistas de pintores como Kankinsky e Malevich. Em sua autobiografia ele vai mais longe, encrevendo que "naquela época ainda não existiam em nenhum lugar pinturas tão informais, tão líricas, tão tachistas..." — afirmaçao que muitos questionam, claro.

Mas parece que Hartung realmente fazia um abstracionismo puro enquanto Kandinsky fazia uma figuração "abstratizada": Hartung trabalhava diretamente com os elementos concretos do quadro — linhas, pontos, formas, cores — sem nenhuma referência à "realidade," enquanto Kankinsky partia da realidade objetiva visível (figuras, paisagens, cavalos, cavaleiros etc), meio que escondendo-a atrás da linha, do ponto, da forma, da cor. Em Kandinky, o motivo não está no quadro em si; em Hartung, desde as primeiras obras os motivos são as manchas e as linhas, sendo ele, por isso, em tese, o primeiro abstracionista.

Em 2011, quando a Tate Gallery fez uma retrospectiva das obras em papel de Hartung, Andrew Graham-Dixon escreveu um artigo desmentindo a suposta "anterioridade" de Hartung — a tese de que ele foi o primeiro abstracionista —, inclusive qualificando-o como um artista medíocre — que talvez seja mesmo. Ou talvez não. O que sei é que essa exposição foi bastante inspiradora para mim.

 

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