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Como retardar a secagem da tinta a óleo

Quando os pintores, durante a Renascença, ou antes, começaram a usar a tinta a óleo, um dos seus atrativos, talvez o principal, deve ter sido a secagem lenta, qualidade que, se comparada às características das outras técnicas e dos outros materiais até então disponíveis, dava um conforto muito grande, uma tranquilidade surpreendente na hora de pintar: havia a possibilidade de ficar manipulando a tinta com o pincel e conseguir incríveis degradês; o pintor podia mudar de ideia, retirar a tinta ainda úmida e começar tudo de novo; e podia experimentar muito mais, enfim.

Só que esse aspecto positivo da secagem lenta podia, às vezes, atrapalhar, especialmente no clima frio da Europa. Para pintar em camadas, por exemplo, era (e é) necessário esperar a tinta da primeira camada secar bem, antes de poder acrescentar uma outra camada. Aqueles artistas começaram então a buscar formas de acelerar a secagem.

Hoje, mais do que nunca, a maioria das pessoas que pintam com tinta a óleo talvez se preocupe mais em acelerar a secagem do que em retardá-la. Mas às vezes pode ser interessante (ou até necessário) fazer com que a tinta permaneça úmida por mais tempo. Quando se busca um alto nível de detalhamento e realismo, pode ser premente um tempo maior de manipulação da tinta.

No meu próprio caso, por exemplo, as naturezas-mortas que eu pintava (algumas delas podem ser vistas neste site), não teriam existido se eu não tivesse usado uma tinta de secagem ultra lenta. Nas fotos não se percebe tanto, mas diante de um desse quadros em uma galeria, as frutas têm vida, têm uma luminosidade interna, e dão a impressão de que estão soltas acima da superfície da tela (se isso parece um autoelogio, não é essa a intenção, longe disso). Esse efeito se deve, em parte (talvez esse seja o principal fator) ao fato de que a figura, no caso a fruta, é pintada em uma única camada de tinta, diretamente sobre o branco da tela, enquanto que o fundo é pintado com várias camadas superpostas. Assim, a luz reflete na tela branca, atravessa a fina camada de tinta da fruta e a faz luzir, em contraste com o fundo, que não reflete tanta luz. E como eu poderia pintar um prato cheio de maçãs ultrarrealistas sem sobrepor camadas se uma única maçã eu levava dois dias para pintar? Se eu não usasse um retardador, a tinta secaria antes de terminar as maçãs, e eu teria que acumular camadas, perdendo a luminosidade.

No início eu simplesmente procurava usar tintas cujos pigmentos, por si sós, faziam com que o aglutinante (o óleo da tinta) oxidasse mais devagar. A tinta a óleo seca por oxidação, ou seja, pela absorção do oxigênio do ar, e alguns pigmentos são feitos com substâncias que inibem parcialmente a oxidação; outros são baseados em compostos que aceleram esse processo químico. As cores de ftalocianina, por exemplo, e as de óxido de ferro, secam em poucas horas porque algum elemento em sua composição catalisa a oxidação do óleo, enquanto os cádmios e os brancos de zinco e titânio, e o violeta de dioxazina, entre outros, pelo motivo oposto, podem levar dias ou até semanas para secar.

Após algumas pesquisas, descobri o óleo de cravo. Apesar do nome, este líquido não é propriamente um óleo, mas um diluente, sendo totalmente volátil (evapora completamente sem deixar resíduo) se for de boa qualidade. O óleo de cravo, ou "essência oleosa de cravo", evapora tão devagar que uma ou duas gotas em um montinho de tinta de uns dois centímetro cúbicos faz com que essa tinta leve vários dias para secar. Isso depende, é claro, como escrevi acima, da composição de cada tinta: alguns pigmentos fazem com que a tinta seque muito rápido; outros, por si sós, retardam a secagem. No primeiro caso o óleo de cravo vai retardar a secagem apenas até o dia seguinte; no outro extremo, a tinta pode levar até uns dez ou quinze dias para secar (num clima frio e úmido até mais).

O uso do óleo de cravo é forma mais eficaz de retardar a secagem da tinta a óleo. Mas, como é um diluente, é preciso ter consciência de que a tinta vai resultar mais fosca, com menos brilho, e, sobretudo, com menor poder de aglutinação e de aderência; e se esse diluente for usado em demasia, não apenas vai levar um tempo muito grande para secar, mas vai prejudicar a qualidade da película de tinta, que, ficando com pouco aglutinante, pode craquelar e desprender.

Uma forma de garantir o poder aglutinante da tinta é acrescentar, junto com o óleo de cravo, um pouquinho de óleo de linhaça polimerizado. Este ajuda a formar uma película mais elástica e mais resistente e, o que vem a calhar aqui, seca mais lentamente que o óleo de linhaça normal. Um pouco de resina alquídica também ajuda a melhorar a durabilidade da camada da tinta, só que a maiora dos médiums alquídicos (Liquin, por exemplo) tem secantes na fórmula (por serem projetados para acelerar a secagem), neutralizando assim uma parte do efeito retardador do óleo de cravo e do óleo polimerizado. É preciso buscar, então, um medium alquídico de secagem não tão rápida, como o Res'n'Gel, da Weber.

Alguns pintores retardam a secagem apenas com óleo de papoula, que é um óleo secante normal, usado como aglutinante em algumas marcas de tinta a óleo, mas que demora muito mais que o de linhaça para secar. É uma boa opção, só que o efeito retardador, na mistura com a tinta, não é tão grande e, como todo óleo, é preciso ter o cuidado de não usar em demasia pelo motivo contrário ao da essência de cravo mencionado acima: ao invés de a tinta resultar fosca, vai ficar com excesso de brilho, lustrosa demais, podendo até ficar enrugada.

Há ainda, como aditivo retardador da secagem, a tradicional terebintina de Veneza, que, além do mais, tem a benigna capacidade de melhorar a flexibilidade da tinta a óleo (embora deixe a película um pouco mais frágil). A terebintina de Veneza é um bálsamo extraído de algumas coníferas, e é a partir dela que se fabrica a terebintina que é usada como diluente. Esse bálsamo tem um efeito que eu, pessoalmente, não gosto: o de nivelar a camada de tinta, fazendo desaparecer a textura dada pelo pincel, fazendo com que a película de tinta fique com uma superfície lisa e lustrosa. Esse acabamento já foi muito apreciado e, ainda hoje, há pessoas que gostam.

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