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Diluentes para pintar a óleo

Solventes ou Diluentes?

No dia a dia, a gente usa os dois termos, "solvente" e "diluente", como se fossem a mesma coisa. Mas, a rigor, um solvente é uma substância líquida que dissolve uma substância sólida; um diluente apenas dilui, ou seja, reduz a densidade de uma tinta ou verniz enquanto ainda úmidos. A acetona, por exemplo, é mais usada como solvente, pois tem o poder de dissolver diversos tipos de tintas já secas. Se você quisesse retirar uma camada de tinta a óleo seca, poderia, teoricamente, passar um pano umedecido com acetona, que derreteria a película de tinta. O chamado thinner, que vendem nas lojas de tintas de parede, também é um solvente muito forte que, no ateliê, só serve mesmo para remover tinta seca, ou para recuperar pincéis endurecidos.

No Brasil, o que vendem sob o nome genérico de thinner são compostos à base de hidrocarbonetos aromáticos. Sua função é dissolver e remover tinta já seca, por isso se diz que são removedores. São bastante tóxicos e não devem ser usados como diluentes.

Na prática da pintura a óleo, solventes são usados com pouca frequência, enquanto diluentes são usados a todo momento.

Por que usar diluentes?

Normalmente, a tinta a óleo vem nas bisnagas com uma consistência adequada para usá-la sem necessidade de nenhum aditivo. Mesmo assim é muito comum diluí-la de alguma forma para alterar sua consistência, tornando-a mais fluida. Depende muito do tipo de pincel que você está usando. Para usar a tinta do jeito que sai do tubo, com uma consistência de manteiga, ou algo assim, temos que usar bons pincéis de cerda chinesa. Com pincéis de pelo mais fino temos que diluir um pouco a tinta. Quando a a tinta endurece dentro do tubo, nem sempre é uma boa opção simplesmente diluí-la. É preciso verificar se a tinta já não está velha demais. Se a causa do endurecimento for a oxidação e o consequente início da polimerização do óleo, não adianta diluir: é melhor jogar fora a bisnaga inteira, pois a tinta já terá perdido seu poder de aderência. É comum que parte do óleo se separe do pigmento, caso em que basta misturar de volta a parte mais dura da tinta com o óleo que separou. Caso este tenha vazado do tubo, acrescenta-se óleo novo. Usa-se diluentes também para acelerar um pouco a secagem e para tornar a tinta menos gorda, ou seja menos oleosa.

Quando se pinta em camadas, é preciso observar a famosa regra "fat over lean", quer dizer, mais oleoso sobre menos oleoso. Se você aplicar uma camada inicial com uma tinta com muito óleo e, em cima dessa camada, depois de seca, aplicar uma tinta com pouco óleo, muito provavelmente esta segunda camada irá craquelar (= rachar) e/ou desprender depois de seca. Uma forma de evitar isso é diluir a tinta das camadas inferiores, deixando-as mais "magras", pintando em cima destas camadas, depois de secas (ou não), com tintas sem diluição, mais "gordas". Se for necessário pintar ainda sobre tinta que não foi diluída, é recomendável acrescentar óleo à tinta — óleo puro, sem diluente, ou com um pouco de verniz ou médium.

Mas é preciso ter muito cuidado para não diluir demasiadamente. Usar diluente em excesso faz com que a película de tinta fique com óleo insuficiente para aglutinar as partículas de pigmento e para aderir adequadamente à tela. O resultado são rachaduras e descascamento. É preciso ter em mente que tanto o excesso de óleo quanto o de diluente são prejudiciais à tinta. Na prática da pintura, a necessidade maior dos solventes e diluentes está na limpeza dos pincéis. É aí que se usa a maior quantidade desses líquidos.

Terebintina

É o diluente (e solvente) mais tradicional da tinta a óleo. O termo vem do francês térébenthine, derivado do latim medieval terebinthina ( http://aulete.uol.com.br), derivado por sua vez do grego terebinthos. Em inglês chamam-na turpentine, ou, coloquialmente, turps. Originalmente se referia à resina extraída de algumas espécies de pinheiros. Hoje em dia, terebentina refere-se não à resina em si, mas à substância líquida e volátil que, mediante várias técnicas de destilação, se obtem a partir da resina. Por isso muitas vezes é denominada essência de terebintina.

Então, a essência de terebintina, ou simplesmente terebintina, como a conhecemos hoje, é um líquido volátil, inflamável, que não se mistura com água, de consistência meio oleosa, incolor (se for realmente pura e nova) e com um odor muito forte e característico, odor este que incomoda a alguns e agrada a outros. Eu me incluo neste segundo grupo. Há, inclusive, quem tenha alergia aos vapores desse diluente. A não ser que seja realmente pura (e consequentemente bem mais cara!), a terebintina deixa resíduos que podem prejudicar a qualidade da película da tinta, causando amarelamento e outros problemas. Atualmente o único momento em que a terebintina é necessária é quando se usa vernizes ou médiums à base da tradicional resina de damar, que não é solúvel em aguarrás. Damar é uma resina sólida que precisa ser diluída em terebintina para ser usada como ingrediente de médiums ou vernizes. Quem não a utiliza pode dizer adeus à terebintina e partir para o aguarrás, um diluente mais econômico e mais fácil de encontrar.

Aguarrás

O termo aguarrás, se aplica a diversos hidrocarbonetos alifáticos destilados a partir do petróleo, cada um com características e usos diferentes, uns mais puros, outros menos. Nas lojas de tinta para parede encontram-se várias marcas de aguarrás, com diferentes graus de qualidade. Os de boa qualidade são o diluente ideal para se pintar a óleo e limpar os pincéis. Aqui é preciso experimentar: alguns podem ter, além de outras impurezas, querosene misturada, o que se percebe pelo cheiro e pela cor. Os melhores são os que possuem menos cheiro e são incolores. É preciso ter cuidado para não confundir com o que, no Brasil, chamam thinner, que é um hidrocarboneto aromático, um solvente fortíssimo, altamente tóxico, inadequado para pintar a óleo, útil apenas para retirar da paleta, por exemplo, restos de tinta que secaram. Ou seja, serve somente como removedor. Existe atualmente no mercado de materiais artísticos um destilado de petróleo totalmente inodoro. É um aguarrás melhorado. O problema é que é caríssimo.

Benzina

A benzina raramente é usada na pintura a óleo, mas pode ser útil. É mais usada nas lavanderias, no processo de limpeza a seco. Mas como é um produto muito puro e porque evapora muito rapidamente, pode ser usado para acelerar a secagem da tinta a óleo. Basta ter o cuidado de não usar em demasia — como qualquer diluente.

Querosene e Gasolina

São totalmente inadequados para uso no ateliê. Alguns pintores, no passado, gostavam de usar uma ou outra, a primeira por sua evaporação lenta, que permitia mais tempo para trabalhar, a segunda pelo motivo oposto: por evaporar muito rápido e acelerar a secagem. Mas ambas são substâncias tóxicas e deixam resíduos que prejudicam a durabilidade da tinta. A querosene é muito, muito impura e a gasolina possui diversos aditivos que podem ser nocivos à tinta.

Perigos

Os diluentes e solventes são os materiais mais potencialmente perigosos que um pintor utiliza. Primeiro, porque são inflamáveis. É preciso ter certos cuidados óbvios, como não usar próximo ao fogo, não fumar, etc. Segundo, porque os vapores que acabamos inalando são mais ou menos tóxicos. Por isso o ateliê tem que ser bem ventilado. O contato direto com a pele também deveria ser evitado, mas isso é meio inexequível: se conseguíssemos superar o incômodo de trabalhar com luvas e máscaras estaríamos bem mais protegidos! Uma aguarrás de boa qualidade, porém, tem um grau de toxicidade relativamente baixo, por isso talvez seja suficiente tomar cuidado para evitar uma exposição muito prolongada, tanto em relação ao líquido quando aos vapores.

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