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Como Michelângelo fez de Davi um gigante (e vice-versa)

Em Roma, Michelângelo morou bem perto da Coluna de Trajano, um monumento de quase 40 metros de altura construído em torno do ano 100 d.C. Não tinha como não ficar impressionado com a sofisticação tecnológica da engenharia da Roma antiga. A tal coluna foi construída com 20 cilindros enormes de mármore, cada um pesando 32 toneladas. A colocação dos cilindros superiores foi uma façanha digna de um imperador romano — um feito sobre-humano para os construtores renascentistas.

Filippo Brunelleschi, um dos mais importantes arquitetos e engenheiros do Renascimento, inventou um sem número de guindastes de vários tipos e para diferentes finalidades, como o que foi usado na construção do domo da Catedral de Florença. Mas nenhum desses dispositivos conseguiria cumprir a tarefa de elevar o Davi de Miquelângelo até o local inicialmente pretendido: o topo de uma das colunas laterais daquela mesma catedral.

Davi de Michelângelo
Davi, escultura em mármore de Michelângelo, concluída em 1504. Depois de ficar três séculos exposta no Pallazo Della Signoria, ao ar livre, está atualmente no interior da Galleria dell'Accademia, em Florença, finalmente protegida das intempéries

A escultura pesa 8 toneladas e meia — mais ou menos o peso de quatro automóveis. Para levá-la até aquela altura teriam que usar uma boa quantidade de cordas grossas, que eram difíceis de conseguir e, seja como for, ninguém sabia se aguentariam o peso. Se a escultura oscilasse demais, ou se fosse puxada de modo brusco, as cordas não seriam fortes o bastante para resistir à força dinâmica da gravidade. E mesmo que desse certo, como saber se a coluna da catedral iria suportar o peso concentrado do colossal Davi? Além disso, naquela altura o vento também poderia comprometer sua estabilidade.

Eles imaginaram outras formas de erguer a escultura, contruindo andaimes, por exemplo. Mas Michelângelo sabia que nada disso daria certo. Era uma tarefa impossível. Com aquele maravilhoso jeito irracional dos renascentistas, o artista e os responsáveis pela catedral devem ter contemplado a ideia de içar a estátua com um guindaste, mas logo perceberam que não seria financeiramente viável e que estava além do alcance das tecnologias e dos recursos disponíveis. Talvez já no início, antes mesmo de começar a esculpir, o escultor tivesse se dado conta de que não seria possível colocar a peça lá em cima — e talvez tenha sido exatamente isso que o libertou.

O Davi acabou se tornando tão familiar para nós que é difícil perceber o quanto ele foi inovador. Já havia na arte florentina muitas representações altamente valorizadas de Davi, mas mesmo assim Michelângelo criou uma obra única: uma figura gigantesca, surpreendentemente nua e minimamente identificável com o personagem bíblico. Impossível imaginar um modo mais peculiar de representar o jovem pastor hebreu, ou uma figura mais inapropriada para adornar uma catedral. Pode ser que o Davi seja como é justamente porque o escultor, percebendo que a estátua não seria colocada no alto da catedral, tenha se sentido livre para produzir um trabalho radicalmente original. Pois foi exatamente o que fez.

Com o Davi, Michelângelo tornou-se um criador de maravilhas e um artista famoso. Ele tinha apenas 29 anos e ainda viveria outros 60, mas nunca, depois dessa obra, ficou sem trabalho, tão extraordinária que foi a façanha de esculpi-la.

A carreira de Michelângelo caracterizou-se por uma série de obras que evidenciaviam sua genialidade e originalidade, e em um mundo onde a originalidade era tão valorizada isso gerou uma enorme demanda. Mas tudo poderia ter sido diferente se ele tivesse simplesmente esculpido uma estátua decorativa para a catedral. Ao invés disso, sabendo que estava livre daquela exigência circunstancial, conscientemente criou uma obra de arte original.

Mas se o lugar do Davi não era em cima da catedral, onde ele seria colocado então? Michelângelo não tinha nenhuma influência significativa direta sobre o destino da escultura, mas isso não o incomodou, pois já tinha realizado o propósito maior: tinha criado uma obra prima. Agora cabia aos cidadãos de Florença encontrar um local adequado para expor a obra.

Na audiência pública para discutir o lugar da estátua, a única pessoa que defendeu a ideia de colocá-la no local originalmente planejado foi o marceneiro Francesco Monciatto. Na abertura falou, entre outros, o próprio Miquelângelo, advertindo que "a instalação precisaria ser firme e estruturalmente confiável." Foi isso, de fato, que excluiu o topo da catedral, e ninguém mais, além do marceneiro, levou a sério a ideia inicial.

No fim das contas, Michelângelo criou "o Gigante" — mais do que um Davi, uma deslumbrante obra de arte cujo tema é ela mesma. E como tal, a obra fugiu dos parâmetros comuns que determinaram a maior parte da arte renascentista: contexto, tradição e precedência, além do controle dos patronos e a expectativa do público.

E foi assim que uma tarefa impossível deu ímpeto à criação de uma escultura única, e impulsionou uma carreira artística fora do comum.

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Este texto é uma tradução livre minha, adaptada de um artigo que William Wallace, não o herói do século XIII mas um estudioso estadunidense de História da Arte, publicou no saite da revista ArtNews em 14/04/2014.

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Escultura Davi, de Michelangelo_0.jpg
Escultura Davi, de Michelangelo, detalhe: cabeça
Escultura Davi, de Michelangelo, detalhe: mão direita
Galleria dell'accademia, Florença, Itália

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